
As cidades e a memória
II
Ao homem que cavalga longamente por terrenos selváticos, sobrevem o desejo de uma cidade. Finalmente alcança Isidora, cidade onde os palácios tem escadas em caracol cravejadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à regra d'arte lunetas e violinos, onde quando o forasteiro está incerto entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas dos galos degeneram em rixas sanguinosas entre os apostadores. Em todas estas coisas ele pensava quando desejava uma cidade. Isidora é portanto a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada lhe continha jovem, a Isidora chegava já em idade avançada. Na praça há a mureta dos velhos que vêem passar a juventude; ele sentou-se ali, enfileirado a eles. Os desejos são já recordações.
Italo Calvino
As Cidades Invisíveis

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