sabato, marzo 18, 2006

As cidades Invisíveis
I



Não se pode dizer que Kublai Kan acredite em tudo aquilo que diz Marco Polo quando lhe descreve as cidades visitadas nas suas embaixadas, mas decerto o imperador dos tártaros continua escutando o jovem veneziano com mais curiosidade e atenção que qualquer outro dos seus emissários ou exploradores. Há um momento na vida dos imperadores que se segue ao orgulho pela vastidão sem fim dos territórios que conquistamos, à melancolia e ao alívio de saber que logo renunciaremos a conhecê-los e a compreendê-los; uma sensação como de vazio que nos arrebata uma tarde com o odor dos elefantes depois da chuva e das cinzas de sândalo que esfria no brazeiro; uma vertigem que faz tremer os rios e as montanhas historiadas sobre o fulvo lombo dos planisférios, que enrola um sobre o outro os despachos que nos anunciam o tombar dos últimos exércitos inimigos a cada derrota, e que escama a cera dos sigilos de reis jamais ouvidos nomear, que imploram a proteção das nossas armadas avançadas em troca de tributos anuais em metais preciosos, peles curtidas e cascos de tartaruga: é este o momento desesperado em que se descobre que tal império, que nos parecia a soma de todas as maravilhas, é um esfacelo sem fim nem forma, que a sua corrupção está incrustada demais para que nosso cetro possa repará-la, que o triunfo sobre soberanos adversários nos fez herdeiros de suas longas ruínas. Só nos relatos de Marco Polo, Kublai Kan conseguia discernir, através das muralhas e das torres destinadas a desabar, a filigrana de um desenho tão sutil a ponto de escapar à roedura dos cupins.

Italo Calvino
As cidades invisíveis

lunedì, marzo 13, 2006

As cidades e a memória
III
Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever-te a cidade de Zaira dos altos baluartes. Poderia dizer-te de quantos degraus são as ruas feitas como escadas, de que ordenamento os arcos dos porticados, de quais lâminas de zinco são recobertos os telhados; mas já sei que seria como não dizer-te nada. Não é feita a cidade disto, mas de relações entre as medidas do seu espaço e os acontecimentos do seu passado. A distância entre a base de um lampião e os pendentes pés de um usurpador enforcado; entre o fio estendido do lampião à balaustrada defronte e as guirlandas que cercam o percurso do cortejo nupcial da rainha; entre a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que a transpõe à aurora; entre a inclinação de uma canaleta e o arquear-se de um gato que se alinha na mesma janela; entre a linha de tiro de uma nau canhoneira que irrompe subitamente de trás do promontório e a bomba que destróe a canaleta; entre os furos das redes de pesca e os três velhos que, sentados sobre o píer a remendar as redes, pela centésima vez contam uns para os outros a história da canhoneira do usurpador que diz-se fosse um filho adulterino da rainha, abandonado rescém-nato alí sobre o píer.
Desta onda que reflui das recordações, a cidade se imbebe como uma esponja, e incha. Uma descrição de Zaira tal como é hoje deveria conter todo o passado de Zaira. Mas a cidade não revela o seu passado, o encerra como as linhas de uma mão, escrito nos becos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nas hastes das bandeiras, cada segmento a sua volta cinzelado de traços, serrilhados, entalhos, escoriações.
Italo Calvino
As cidades invisíveis

domenica, marzo 12, 2006

As cidades e o desejo
I
Da cidade de Dorotéa se pode falar de duas maneiras: pode-se dizer que quatro torres de alumínio se elevam dos seus muros, ladeando sete portas a partir da ponte elevadiça a mola que transpõe o fosso cuja água alimenta quatro verdes canais que cortam a cidade, e a dividem em nove bairros, cada um com trezentas casas e setecentas chaminés; e, tendo-se em conta que as garotas de cada bairro esposam maridos dos outros, e que as famílias trocam as mercadorias que cada qual tem em exclusividade: bergamotas, ovas de esturjão, astrolábios, ametistas, e então fazer cálculos com base nestes dados até saber tudo aquilo que se quer sobre a cidade no passado, no presente, no futuro, ou pode-se ainda falar como o cameleiro que me conduziu até lá: 'Cheguei ali na primeira juventude, uma manhã, muita gente andava célere pelas ruas rumo ao mercado, as mulheres tinham belos dentes e olhavam fundo nos olhos, três soldados sobre um palco tocavam clarím, por todo o entorno giravam rodas e meneavam escritos coloridos. Até então, não tinha conhecido mais que o deserto e os rastos das caravanas. Aquela manhã em Dorotéia senti que não existia bem na vida que não estivesse à minha espera. No seguir dos anos, meus olhos tornaram a contemplar as distâncias do deserto e as trilhas das caravanas; mas agora sei que esta é apenas uma das tantas vias que se me abriam aquela manhã em Dorotéia'.
Italo Calvino
As cidades invisíveis




La vecchia grassa e rozza del Palazzo del Bargello


Tão logo entramos na sala do palácio, nos deparamos com um cenário desarmônico em sua grosseira contradição. Em meio aos brônzeos Hercules de um refinado Giambologna, postava-se uma velha gorda e rude, representante inequívoca do passado policialesco do edifício, imersa na leitura de uma frívola revista de fofocas. A inculta nem se dava conta de toda a rica cultura ao seu redor. Fez-se a ocasião para um registro. Flash. Atônita, a velha se levanta aos gritos...Desliguem a máquina...Guardem-na...É proibido fotografar....Mais gritos, de uma lado e de outro, olhares, gritos, ameaças, gritos, seguranças...tumulto...E por fim, a indubitável certeza de que a agreste indignação daquela velha gorda e obtusa nada tinha a ver com as fatigas de Hércules, mas tão somente com a forçosa interrupção da sua leitura estúpida captada desavisadamente pela lente de uma pequena digital.

sabato, marzo 11, 2006



As cidades e a memória
II
Ao homem que cavalga longamente por terrenos selváticos, sobrevem o desejo de uma cidade. Finalmente alcança Isidora, cidade onde os palácios tem escadas em caracol cravejadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à regra d'arte lunetas e violinos, onde quando o forasteiro está incerto entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas dos galos degeneram em rixas sanguinosas entre os apostadores. Em todas estas coisas ele pensava quando desejava uma cidade. Isidora é portanto a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada lhe continha jovem, a Isidora chegava já em idade avançada. Na praça há a mureta dos velhos que vêem passar a juventude; ele sentou-se ali, enfileirado a eles. Os desejos são já recordações.
Italo Calvino
As Cidades Invisíveis



As cidades e a memória
I


Afastando-se dali e andando três dias em direção ao levante, o homem se encontra em Diomira, cidade com sessenta cúpulas de argento, estátuas em bronze de todos os deuses, ruas lastradas em estanho, um teatro de cristal, um galo de ouro que canta toda manhã sobre uma torre. Todas estas belezas o viajante já conhece por tê-las visto também em outras cidades. Mas a propriedade desta é que quem ali chega numa tarde de setembro, quando os dias se encurtam e as polícromas lâmpadas se acendem todas juntas sobre as portas das bodegas e de uma terraça uma voz de mulher grita: aah!, acontece-lhe de invejar aqueles que agora pensam de terem já vivido uma tarde como esta, e de, naquela ocasião, terem sido felizes.


Italo Calvino
As cidades invisíveis