"Na verdade, aqueles entardeceres com rum e luz dourada e poemas duros ou melancólicos e cartas aos amigos distantes me faziam ganhar confiança em mim mesmo. Se você tem idéias próprias - mesmo que sejam só umas poucas idéias próprias -, tem de compreender que estará sempre encontrando caras feias, gente que vai fazer questão de lhe dar o contra, de diminuí-lo, de 'fazer você entender' que não tem nada a dizer, ou que você deve evitar aquele sujeito porque é louco, ou efeminado, ou um verme, um vagabundo, outro porque é punheteiro ou voyeur, outro porque é ladrão, outro, macumbeiro, espírita, maconheiro, outra porque é canalha, indecente, puta, sapatona, mal-eucada. Eles reduzem o mundo a umas poucas pessoas híbridas, monótonas, aborrecidas e 'perfeitas'. E assim querem transformar você num excluído e num merda. Jogam você de cabeça na seita particular deles para ignorar e suprimir todos os outros. E lhe dizem:
'A vida é assim, meu senhor, um processo de seleção e descarte. Nós somos donos da verdade. O resto que se foda.' E como passam trinta e cinco anos martelando isso no seu cérebro, quando você está isolado se acha o máximo e se empobrece muito porque perde uma coisa bonita da vida, que é desfrutar a diversidade, aceitar que nem todos somos iguais e que se assim fosse seria muito chato." (Pedro Juan Gutiérrez, Trilogia Suja de Havana)
'A vida é assim, meu senhor, um processo de seleção e descarte. Nós somos donos da verdade. O resto que se foda.' E como passam trinta e cinco anos martelando isso no seu cérebro, quando você está isolado se acha o máximo e se empobrece muito porque perde uma coisa bonita da vida, que é desfrutar a diversidade, aceitar que nem todos somos iguais e que se assim fosse seria muito chato." (Pedro Juan Gutiérrez, Trilogia Suja de Havana)

